Avaliação das aprendizagens em Portugal
Investigação e teoria da actividade
Autor: Domingos Fernandes +
páginas: 87 88 89 90 91 92 93 94 95 96 97 98 99 100 | pdf | próximo artigo »
As investigações realizadas no âmbito de programas de mestrado produziram, entre outros, os seguintes resultados:
- As práticas de avaliação formativa estão longe de fazer parte da vida pedagógica das escolas. A grande maioria dos professores reconhece a sua relevância e importância para ajudar os alunos a aprender, mas utiliza uma diversidade de argumentos que justificam a inconsistência entre as suas concepções e as suas práticas (e.g., falta de formação, necessidade de cumprir o programa).
- A avaliação é fundamentalmente um assunto do professor. São poucas as investigações que mostram que existe partilha dos processos de avaliação com os alunos, pais, professores ou outros intervenientes.
- A avaliação ainda é um processo pouco transparente. Os critérios de avaliação, de correcção e de classificação não são, em geral, explicitados nem clarificados com os alunos.
- A avaliação tende a ser pouco rigorosa e pouco diversificada. Os testes prevalecem. Foi possível constatar a utilização de formas alternativas de recolha de informação num reduzido número de casos.
- A avaliação como medida ou como forma de verificar se os objectivos foram ou não atingidos são as concepções predominantes. Avaliar para aprender ou para melhorar são concepções que apenas uma minoria de professores parece compreender e pôr em prática.
Estes resultados suscitam um conjunto de questões e de reflexões que, embora não possam ser discutidas no contexto deste artigo, podem ser consultadas nas seis sínteses da literatura acima referidas.
Teses de doutoramento
No que se refere a teses de doutoramento interessa sublinhar que, num período de 15 anos, foram concluídas 12 teses em que, de algum modo, a avaliação era objecto de investigação. No entanto, só oito cumpriam os critérios definidos na investigação de Fernandes (2008a), nomeadamente terem a avaliação das aprendizagens de alunos do ensino não superior como objecto primordial de estudo. Das seis teses analisadas por Barreira e Pinto (2006) cinco também foram analisadas por Fernandes (2008a). Neves et al. (2004) analisaram apenas uma tese. A maioria das teses analisadas foi concluída entre 2001 e 2004.
Sete das oito teses estão fortemente inspiradas por perspectivas relativas aos pensamentos dos professores, nomeadamente aos seus sistemas de concepções e às suas relações com as respectivas práticas. É de notar que, seguindo o padrão já identificado nas dissertações de mestrado, a quase totalidade dos investigadores não recolheram dados através da observação das práticas dos professores nas salas de aula. O inquérito por questionário e por entrevista e a análise documental foram as abordagens mais utilizadas nestas investigações que são de natureza descritiva, analítica e interpretativa e baseiam-se, quase todas, em estudos de caso.
Apenas uma tese inclui o contexto do ensino secundário. As restantes realizaram-se todas no contexto da educação de infância (uma) e da educação básica.
Pode dizer-se que os resultados e conclusões das investigações realizadas no âmbito de programas de doutoramento são essencialmente consistentes com os que se encontraram no âmbito dos programas de mestrado. Em todo o caso destacam-se aqui as seguintes:
- A avaliação das aprendizagens não ocorre de forma contínua e sistemática; a avaliação formativa é pouco frequente e mais baseada na intuição dos professores do que na recolha deliberada e propositada de informação.
- As concepções e práticas de avaliação dos professores parecem estar fortemente dependentes da cultura avaliativa existente nas escolas e na sociedade; neste sentido, a formação inicial e contínua dos professores parece ter uma influência limitada.
- O objecto de avaliação por excelência é o conhecimento das matérias curriculares avaliado através de testes e outros trabalhos escritos que constituem as estratégias privilegiadas de recolha de informação avaliativa.
- As reformas educativas têm pouco impacto nas práticas dos professores e na sua consciência profissional. Os professores não possuem uma perspectiva crítica sobre os normativos da avaliação porque, em geral, não conhecem os seus princípios estruturantes. Talvez por essa razão considerem que os novos diplomas de avaliação vieram, acima de tudo, aumentar o trabalho burocrático.
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