Sísifo Revista de Ciências da Educação Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa  Direcção de Rui Canário e Jorge Ramos do Ó ISSN: 1646-4990

04
2007
Set | Out | Nov | Dez

Conhecimento, Decisão Política e Acção Pública em Educação

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Educação e Globalização

Uma tentativa de colocar ordem no debate

Autor: Bernard Charlot +

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Crescem também, em particular no Japão e na Coréia do Sul, os cursos privados que recebem os jovens depois da escola. Quem não freqüenta esses cursos tem pouquíssimas chances de ingressar numa universidade.

Prosperam, ainda, os cursos de língua estrangeira, em especial os que ensinam o inglês ou, como dizem alguns especialistas de lingüística, o “globish”, isto é, o inglês usado nas trocas internacionais. Lá onde estou vivendo, em Aracaju, no nordeste brasileiro, é interessante comparar a Aliança Francesa e Cultura Inglesa. A Aliança Francesa acolhe os seus alunos num velho prédio, com pequenas salas tradicionais, pouco material, uma biblioteca de tipo tradicional. Cultura inglesa recebe-os num prédio moderno, com vidros grandes e todo o equipamento moderno. É a diferença entre aprender uma língua e entrar na competição internacional. Posto isso, se a Aliança Francesa tivesse equipamento moderno, não se tornaria neoliberal por isso, providenciaria aos seus alunos meios modernos de aprender uma língua...

Observa-se, igualmente, o ingresso de grandes multinacionais nas escolas. Coca-Cola, por exemplo, paga para a escola disponibilizar uma máquina distribuindo Coca-Cola. Nestlé envia material gratuito sobre o que é uma boa alimentação e Colgate interessa-se pela higiene dentária. Em plena neutralidade pedagógica, claro está... Vinte anos atrás, nem poderíamos pensar nisso. Hoje, há discussões na escola para saber se são práticas aceitáveis.

Note-se que não se trata mesmo da globalização, mas da progressão do neoliberalismo, mesmo que sejam atualmente dois fenômenos estreitamente ligados. Outros fenômenos estão se desenvolvendo, talvez mais perigosos por serem mais ambíguos: formas de hibridação entre lógicas de serviço público e lógicas neoliberais. Por exemplo, na França a concorrência está se desenvolvendo entre as escolas públicas, para enviarem os mais fracos para outras escolas e receberem os melhores. Também, dentro das escolas das periferias, muitas vezes há uma classe que vai receber os poucos filhos de classe média que continuam freqüentando essa escola.
 
Para abordar os efeitos da própria globalização sobre a educação, é preciso falar das organizações internacionais: OCDE, FMI, Banco Mundial e OMC. Mas cuidado: uma organização internacional, na verdade, só tem o poder que lhe conferem os Estados que a sustentam. Às vezes, acha-se que é a organização internacional que decide. Ela toma decisões, claro, mas na lógica e, muitas vezes, conforme os interesses dos países que a mantêm, isto é, que a financiam. Atrás das organizações internacionais, é o poder do capital internacional que funciona. A Organização para a Cooperação e Desenvolvimento Econômico (OCDE) recebe 25% do seu orçamento dos Estados Unidos. No FMI, em 2005, os Estados Unidos tinham 17% dos votos, a França 5%, Arábia Saudita 3,2%, Índia 1,9%, Brasil 1,4%, Indonésia 1%. Juntos, Índia, Brasil e Indonésia, com quase 500 milhões de habitantes, têm menos peso no FMI do que a França, com 60 milhões. No Banco Mundial, o número de votos de cada país depende do capital que ele colocou no Banco. A organização mais democrática, apesar de ser muito criticada, é a OMC, onde cada país tem um voto. A OMC não tem poder de decisão. A sua função é organizar as discussões entre os vários países e são estes que celebram contratos. Contudo, a OMC tem um poder importante: depois de um convênio ter sido assinado, a OMC arbitra os conflitos e ela já decidiu a favor de países do sul, contra os Estados Unidos ou a União Européia.

Na área da educação, o lugar mais importante para os países ricos é a OCDE. É o thinking tank, como dizem os norte-americanos, isto é o reservatório para idéias. Saíram da OCDE a “reforma da matemática moderna”, a idéia e a própria expressão de “qualidade da educação”, a idéia de “economia do saber”, a de “formação ao longo de toda a vida”. A OCDE é o centro do pensamento neoliberal no que tange à educação. Não é de admirar-se disso quando se sabe que foi explicitamente criada para promover a economia de mercado.

Para os países mais pobres, as organizações importantes são o FMI e o Banco Mundial. São as chamadas organizações de Bretton Woods, em referência ao lugar onde foi pensada a reorganização da economia mundial, em 1944. A missão do FMI é evitar uma crise igual à de 1929. Para tanto, ele empresta dinheiro, a curto prazo, aos países com problemas financeiros. Para saber se esses países têm condições de reembolsá-lo e para ajudá-los a criar essas condições, O FMI estabelece com eles “planos de ajustamento estrutural”. Nestes, muitas vezes são feitos cortes nos orçamentos da saúde e da educação, que são gastos sem rentabilidade de curto prazo.

O Banco Mundial tem uma missão de combate à pobreza a longo prazo. Na verdade, é um grupo constituído pelo Banco Internacional para a Reconstrução e o Desenvolvimento (BIRD) mais quatro organizações a ele associadas. É basicamente um banco, cuja função é emprestar dinheiro para amparar projetos de desenvolvimento, em particular na área da educação. Em 2004, 89 países tinham projetos financiados, pelo menos parcialmente, pelo Banco Mundial. No entanto, esse Banco não empresta dinheiro para qualquer projeto, claro está. Avalia os projetos que lhe são submetidos, de acordo com os seus próprios critérios e, também, dá conselhos aos países que pretendem ter projetos financiados. Tornou-se assim o principal consultor dos países do sul na área da educação. Ora, o Banco Mundial tem uma doutrina oficial. Pensa que a qualidade da educação é fundamental para lutar contra a pobreza, mas que não tem e nunca terá dinheiro público suficiente para desenvolver uma educação de qualidade. Daí o Banco Mundial conclui que é preciso dinheiro privado. Considera que os quatro ou cinco anos de educação primária incumbem ao Estado, mas que a educação secundária e superior deve ser paga pelos pais. Acha também que nos países pobres, em particular os da África, é preciso diminuir o salário dos professores, para reduzir a diferença entre o que eles ganham e a renda dos camponeses.

Sobre o Autor:

Bernard Charlot (rb.moc.arret@tolrahc.dranrebREVERSETHIS) - CV

Universidade Paris 8 | Universidade Federal de Sergipe

Professor emérito em Ciências da Educação da Universidade de Paris 8 e, actualmente, Professor Visitante no Programa de Pós‑Graduação em Educação da Universidade Federal de Sergipe (Aracaju, Brasil).

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Como referenciar este artigo:

Charlot, Bernard (1970). Educação e Globalização. Uma tentativa de colocar ordem no debate. Sísifo. Revista de Ciências da Educação, , pp. 125-132. Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt