Sísifo Revista de Ciências da Educação Unidade de I&D de Ciências da Educação da Universidade de Lisboa  Direcção de Rui Canário e Jorge Ramos do Ó ISSN: 1646-4990

01
2006
Set | Out | Nov | Dez

História da Educação e Educação Comparada: novos territórios e algumas revisitações a dois domínios disciplinares contíguos

versão completa em PDF

« artigo anterior

Os Terrenos Disciplinares da Alma e do Self-Government no Primeiro Mapa das Ciências da Educação (1879-1911)

Autor: Jorge Ramos do Ó +

páginas: 81 82 83 84 85 86 87 88 89 90 91 92 | pdf | próximo artigo »

As reflexões pedagógicas visavam associar, senão mesmo unificar, o que o senso comum seria levado a entender como correspondendo a realidades antinómicas ou a hipóteses paradoxais.

O sociólogo Durkheim consagrou igualmente muitas páginas de cariz doutrinário-justificativo à fusão dos contrários, partindo invariavelmente do valor absoluto da razão científica e da consciência da moral. Insistiu no princípio de que qualquer projecto educativo para se apresentar como moderno teria de traduzir autonomia pessoal por domínio de si. Durkheim pretendeu justificar a tese de que só o trabalho de subjectivação das regras da moral seria uma base segura para uma vida social saudável. Teve, por isso, necessidade de unificar as grandes oposições binárias que qualquer relação educativa suscita. Liberdade e autoridade, constrangimento e consentimento, devoção e sacrifício, razão e consciência não eram para si territórios de modo algum separáveis. O seu longo artigo “Éducation” encerra com um parágrafo que sintetiza todo um programa de power-knowledge e de promoção dos regimes de self-government que a escola do século XX iria efectivamente universalizar. Reproduzo-o integralmente:

"On a quelquefois opposé la liberté et l’autorité comme si ceux deux facteurs de l’éducation se contredisaient et se limitaient l’un l’autre. Mais cette opposition est factice. En réalité, ces deux termes s’impliquent loin de s’exclure. La liberté est fille de la liberté bien entendue. Car être libre, ce n’est pas faire ce qui plait; c’est être maître de soi, c’est savoir agir par raison et faire son devoir. Or c’est justement à doter l’enfant de cette maîtrise de soi que l’autorité du maître doit être employée. L’autorité du maître n’est qu’un aspect de l’autorité du devoir et de la raison. L’enfant doit donc être exercé à la reconnaître dans la parole de l’éducateur et à en subir l’ascendant; c’est à cette condition qu’il saura plus tard la retrouver dans sa conscience et y déferer" (Durkheim, 1911a, p. 536).

As faculdades da alma e a individualização psicológica do aluno

A concepção de relação educativa de tipo moderno estabelece um nexo causal entre o conhecimento particularizado das tendências, hábitos, desejos ou emoções dos alunos e a moldagem da sua sensibilidade moral. Foi a tentativa de viabilizar esta tecnologia socializadora, de carácter disciplinar, que esteve na origem da descoberta do aluno e do seu tratamento diferenciado a partir do último quartel do século XIX. Se a personalidade individual se havia tornado o elemento central da cultura intelectual desse tempo, da política à economia até à arte, era também necessário que o educador passasse a ter em conta o germe de individualidade que se escondia em cada criança. Em vez de tratar a população escolar de forma uniforme e invariável, o professor moderno deveria variar as suas metodologias "suivant les tempéraments et la tournure de chaque intelligence". E, para que as práticas educativas se acomodassem com justeza à diversidade de casos particulares, "il faut savoir à quoi elles tendent, quelles sont les raisons des différents procédés", notava Durkheim no seu outro artigo “Pédagogie” (1911b, p. 1541).

Era sobretudo a psicologia infantil que devia responder à necessidade de conhecer as três faculdades da alma laica - "sensibilidade", "vontade" e "inteligência" -, porque ela se obrigava a reconhecer a diversidade dos caracteres individuais. Henri Marion fornece-nos, de novo, uma adequada definição da disciplina: "psychologie veut dire science de l'âme: le domaine de la psychologie varie selon la façon d'entendre l'âme, et selon ce qu'on croit pouvoir connaître d'elle scientifiquement" (Marion, 1882, p. 1761). Tratava-se de operar uma separação da criança do adulto, de trabalhar sobre uma diferença que era ainda mais de natureza quantitativa do que propriamente qualitativa. Estes autores comparavam ainda alguns traços e inclinações das crianças aos seres primitivos ou aos adultos sob a influência da hipnose. Gabriel Compayré, nos seus vários trabalhos sobre as faculdades da alma, afirmaria que estas se encontravam na infância na qualidade de germes ou rudimentos, como estruturas algo indistintas e confusas, num estado inferior àquele em que podiam ser observadas na idade madura. O que a ciência de então estava em condições de demonstrar era apenas a plasticidade do cérebro infantil para poder justificar, de modo satisfatório, uma influência positiva do sobre a inteligência, a sensibilidade e a vontade.


Sobre o Autor:

Jorge Ramos do Ó (tp.lu.ei@o.egrojREVERSETHIS) - CV

Universidade de Lisboa | Portugal

Keywords
Governamentalidade / auto-governo, Pedagogia moderna, &type=keywords">, Moral e discipina escolar.
Como referenciar este artigo:

Ó, Jorge Ramos do (1970). Os Terrenos Disciplinares da Alma e do Self-Government no Primeiro Mapa das Ciências da Educação (1879-1911). Sísifo. Revista de Ciências da Educação, , pp. 81-92. Consultado em [mês, ano] em http://sisifo.fpce.ul.pt