Necessidade e Actualidade das Ciências da Educação
Texto da conferência proferida na Academia das Ciências de Lisboa a 27 de Julho de 2006
Autor: Albano Estrela +
páginas: 143 144 145 146 147 148 | pdf | próximo artigo »
Exmo Senhor Presidente da Academia das Ciências de Lisboa,
Exmo Senhor Secretário Geral da Academia das Ciências de Lisboa,
Exmos Confrades,
Minhas Senhoras e meus Senhores,
Hesitei muito na escolha de um tema para esta comunicação. Hesitei entre uma comunicação centrada na Epistemologia das Ciências da Educação e a História do Pensamento Educacional ao longo do século XX. Mas tanto um como outro tema tinha uma característica que não era do meu agrado: deixava-me de fora, enquanto cidadão que viveu os grandes problemas da Educação na segunda metade do século XX.
Assim, optei por algo de intermédio, que conjugasse – de um modo articulado, sempre que possível – as três vertentes enunciadas, ou seja, a perspectiva epistemológica, a perspectiva histórica e a vivência pessoal de quem tem uma história dentro da História. Por isso, agradeço à Academia das Ciências de Lisboa a oportunidade que me deu para reflectir sobre o modo como vivi e como me tenho posicionado perante a Educação e as Ciências da Educação, ao longo da minha vida.
Olhando para essa caminhada de mais de meio século, não posso deixar de me regozijar por ter vivido em tempo tão rico de ideias e acções, no campo educacional, como é este nosso. Não sei quando comecei a interessar-me pelos assuntos da Educação, mas creio que foi no meu tempo de adolescente, durante a Segunda Grande Guerra, por via de duas pregações que ouvi. Autor das pregações: o Padre Américo. A força das suas palavras alertou-me para dois aspectos: a obrigação moral que todos temos de colaborar na educação do nosso semelhante e as enormes potencialidades que existem em cada criança, em cada jovem, potencialidades que cumpre ao educador fazer emergir.
Foi mensagem que nunca esqueci e que me despertou, posteriormente, para leituras de autores da especialidade, como Maria Montessori. Por um feliz acaso, pude ler, ainda nos inícios dos anos cinquenta, a sua “Pedagogia Científica”. De filiação cristã e católica, aliás como a pedagogia que o Padre Américo estava a concretizar na Casa do Gaiato, Maria Montessori, na sua “Casa dei Bambini”, valorizava outros aspectos, como a actividade espontânea da criança e dela fazia decorrer a intervenção educativa. Mas foi a preocupação de objectividade e de rigor, que atravessa toda a obra, que me impressionou sobremaneira. Instrumento privilegiado para a consecução desta preocupação: a observação exaustiva dos educandos, das situações, dos ambientes em que educadores e educandos interagem.
Enfim, uma via nova para a construção da intervenção pedagógica, assente em descrições pormenorizadas e precisas do estar e do fazer. Uma compreensão diferente do aluno e das suas relações com o meio e o educador. Uma interpretação dinâmica da sala de aula, assente em dados objectivos, sujeitos ao controlo da observação.
Mas o que mais me impressionou foi o contraste com a educação a que eu e os meus colegas fôramos sujeitos, no colégio portuense que frequentáramos. Educação tradicional, centrada na memorização de coisas que fugiam à nossa compreensão, na obediência, no imobilismo físico e mental. O que originava, como não podia deixar de ser, um sentimento generalizado de revolta e de violência, que rebentava quando menos se esperava.
Estas e outras perspectivas constituíram uma lufada de ar fresco, que me abriu novos horizontes e me levou a contactar com educadores e correntes de quadrantes diferentes, em voga nesse início dos anos cinquenta.
De referir serão, também, as duas grandes linhas de teorização e de intervenção educativa, que ainda persistiam naquela época em Portugal: por um lado, a educação laica e republicana; por outro, o movimento que ficou conhecido como a Escola Nova. Linhas por vezes convergentes, mas geralmente paralelas, fundamentadas que eram em pressupostos diferentes.
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