Recensão da obra "O Governo de Si Mesmo.Modernidade pedagógica e encenações disciplinares do aluno liceal (último quartel do século XIX - meados do século XX)", de Jorge Ramos do Ó
[2003]. Lisboa: Educa
Autor: António Nóvoa +
páginas: 139 140 141 142 | pdf | próximo artigo »
Recensão do Livro:
“O governo de si mesmo. Modernidade pedagógica e encenações disciplinares do aluno liceal (último quartel do século XIX – meados do século XX)”, de Jorge Ramos do Ó.
Mitos
A primeira história só podia ser de Rousseau. O seu nome está na origem dos mitos e contra-mitos do debate pedagógico contemporâneo. A ilusão do “bom selvagem” alimentou – e curiosamente continua ainda a alimentar – controvérsias que parecem ter apenas dois lados: pró ou contra. Na ânsia da justificação, perde-se a possibilidade da compreensão. E, em particular, da compreensão histórica. Se relêssemos o segundo livro do Émile ou de l’éducation, no qual se aconselha o jovem professor a “governar sem preceitos, e tudo fazer nada fazendo”, veríamos Rousseau explicar que, nos modelos mais correntes de educação, “o mestre comanda e pensa que governa, quando na verdade quem governa é a criança”. Neste jogo, a criança emprega todas as suas energias “para salvar a sua liberdade natural das grilhetas do tirano”. E, regra geral, sai vencedora. Eis o que o conduz a criticar esta educação, a que mais tarde se chamará “tradicional”, sugerindo aos professores que sigam o caminho inverso: “deixem que o vosso aluno acredite sempre ser ele o mestre, quando, na verdade, são sempre vocês que o são”. “Não há dominação tão perfeita como aquela que mantém a aparência da liberdade, porque assim cativa-se a própria vontade”, continua Rousseau que conclui com uma ideia tão esquecida pelas vulgatas do pró e do contra: “A criança só deve fazer aquilo que quer; mas deve querer apenas aquilo que vocês querem que ela faça; ela não deve dar passo sem que vocês o tenham previsto; ela não deve abrir a boca sem que vocês saibam o que ela vai dizer”.
A segunda história é já do princípio do século XX. São palavras de Chesterton, nos seus Disparates do Mundo, a propósito da inútil distinção entre uma educação que viria de dentro e uma instrução que seria imposta de fora: “Com certeza que é possível extrair da criança guinchos e grunhidos, para o que basta beliscá-la ou abaná-la, divertido mas cruel passatempo a que se entregam muitos psicólogos, mas temos que esperar e velar com muita paciência antes que dela saia a língua inglesa. Essa temos nós que lha incutir, e isto põe ponto final na questão. [...] O educador-sacador é tão arbitrário e coercitivo como o instrutor-difusor. [...] O único resultado de toda essa pomposa e precisa distinção entre o educador e o instrutor é que o instrutor faz entrar na criança o que quer, enquanto o educador faz dela sair o que lhe apetece. Intelectualmente, as duas violências são iguais, como fisicamente, em matéria de violências, o efeito de puxar ou empurrar é idêntico”. Não ficam por aqui as reflexões provocatórias de Chesterton, que arrasam as dicotomias inúteis dos nossos inflamados debates, chegando mesmo a afirmar que “os partidários da educação livre proíbem mais do que os educadores à moda antiga”. E explica com uma crítica forte aos médicos, psicólogos, eugenistas, cientistas, doutores e outras pessoas a quem a lei moderna autoriza a ditar leis aos seus concidadãos: o velho mestre de aldeia batia no aluno que não sabia gramática, mas depois mandava-o brincar para o recreio; o mestre científico moderno segue-o até ao pátio e obriga-o a praticar jogos educativos e exercícios saudáveis!
A terceira história junta as outras duas. É um texto muito curioso do principal autor do movimento da Educação Nova, Édouard Claparède. No seu tempo, a escola e os educadores eram muito criticados pela permissividade que demonstravam. Dizia-se que não havia autoridade, que a sociedade estava num processo de decadência, originado em grande parte pelo facto de as crianças fazerem apenas o que queriam, não lhes sendo exigido qualquer esforço, qualquer obrigação.
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